Sábado fui ao Rato para o curso de francês, só para descobrir que havia sido cancelado. Fui direto do local da aula encontrar uns amigos no Adamastor, um mirante da cidade ao qual eu nunca tinha ido. Minha primeira intenção foi pegar um metro, mas o dia estava absurdamente ensolarado e até quente para uma temporada de inverno. Resolvi ir andando. Pelo Google maps, não parecia muito longe, 20 minutos.
Foi prazeroso fazer o caminho à pé e descobrir muitas ruelinhas de Lisboa que eu nunca tinha estado. A cada esquina, uma casa antiga linda, uma lojinha cheia de personalidade, um restaurante vegetariano que quis guardar o nome para experimentar. O mapa me surpreendeu quando tive que subir longos lances de escadas, por três vezes em momentos diferentes. No fim, era até óbvio que eles fizessem parte do caminho, afinal, eu estava indo a um mirante. Mas não me aborreci ou fiquei cansada, estava sem pressa, fui devagar observando as artes grafitadas nas paredes perto dos degraus, as casinhas que se escondiam a cada lance, as tascas.
Em uma rua já perto do destino final, comecei a ouvir música. E não era qualquer som, era Jimi Hendrix, "Hey Joe" tocado ao vivo. Comecei a buscar de onde vinha, minha imaginação logo se acendeu pensando que vinha de algum bar, que eu poderia entrar para espiar o concerto. Andei mais alguns metros e não consegui localizar. Foi quando finalmente me toquei que estava vindo de uma casa, era um ensaio de garagem. "Que azar, não vou poder ver a banda", pensei.
Ainda assim, curti o som se espalhando da casa para a rua, para aquele espaço especial da cidade aonde eu colocava meus pés pela primeira vez. Pareceu a trilha sonora perfeita, que habitaria para sempre a memória daquele dia. Lisboa pode até ser a cidade do Fado, e esse estilo musical tem sim todo seu charme e importância. Mas a minha Lisboa combina mais com Jimi Hendrix.
Quando eu era adolescente, sempre acordava com alguma música martelando meu cérebro. Lembro que ia para a escola e, todos os dias, perguntava à minha melhor amiga: "Advinha com qual música acordei na cabeça hoje?". Aos meus catorze anos, confesso, muito provavelmente não era nenhuma melodia que merece registro.
Mas há algum tempo isso não ocorria. Com as atribulações da vida adulta, a lembrança matinal de música foi cedendo espaço pela "lista diária". Afazeres vários, pendências a resolver. Um exercício estressante e inútil de quando realizar cada tarefa do dia, sem deixar nada para trás.
Pois bem, hoje eu acordei, e lá estava ela. A música. Fiquei surpreendida ao despertar de maneira tão leve, meu inconsciente invadindo a manhã com acordes conhecidos e não com ordens imperativas. Tudo bem, foi um título inusitado: "Sitting, wating, wishing" do Jack Johnson. Nem de perto é uma das minhas preferências musicais. Algum tempo depois, lembrei que logo antes de acordar estava sonhando com uma praia ensolarada. Então, o inconsciente puxou a melodia. Veio bem a calhar para o dia outonal de Lisboa, com chuva e frio.
Até meus oito anos, a melhor coisa que eu poderia pensar em fazer com uma televisão era jogar Super Nintendo. A partir dos meus 13 anos, eu aderi à modinha de odiar a MTV e tudo o que ela representa no mercado fonográfico. No entanto, nunca vou poder negar que foi ela (a MTV) que mudou a minha vida para sempre no aspecto musical.
O ano era 2000 e eu, como de costume, estava passando o fim de semana na casa do meu avô. Minha irmã gostava de assistir o Top 10 do Disk Mtv enquanto eu ficava agoniado pra jogar Super Mario World. Em algum ponto do programa, o clipe de Otherside surgiu na tela.
Eu só precisei assistir uma única vez para me viciar sem possibilidade de retorno. Pouco tempo depois resolvi pedir pra minha mãe comprar o CD dos Chilli Peppers. Custava $40 reais na época, ela hesitou mas resolveu comprar. Eu surpreendi a família inteira com o meu recém descoberto gosto musical. "Isso é muito bom mesmo!" minha mãe diz ter pensado.
Eu poderia fazer uma análise mais profunda sobre o álbum, contar sua história, falar sobre cada faixa, mas acredito que esse tipo de análise pode ser encontrada em outros sítios e muito mais bem feitas. O que vale a pena aqui era justamente contar a minha história com esse álbum! Hoje em dia eu ouço diversas bandas e mal tenho tempo para o quarteto californiano, no entanto, nunca vou conseguir me arrepender da minha escolha. Com a família que tenho, era inevitável que eu gostasse de rock um dia. Mas com os Chili Peppers, foi um golpe de sorte.
Minha
experiência com Beatles vem de longa data. Filha de beatlemaníaca, eu não
consigo lembrar da vida sem os quatro garotos de Liverpool. Talvez meu primeiro
contato com uma música do Revolver tenha sido por causa do desenho animado Yellow
Submarine, que é também a sexta canção do álbum. Eu costumava assistir esse filme quando pequena.(É, eu sei, um filme pouco usual para se mostrar a uma
criança, mas em casa de mãe fanática por Beatles, é assim).
Eu fui literalmente criada assim. Sério, não tô exagerando!
Durante muito
tempo, meu contato com Beatles foi tangencial. Como minha mãe sempre gostou muito, eu sabia identificar a banda quando ouvia em qualquer outro lugar.
Mas a vontade de conhecer mais a fundo, aprender as letras, saber a história da
banda, ou seja, de virar uma beatlemaníaca, veio somente mais tarde. E aconteceu
justamente por causa do Revolver.
Lembro de
estar remexendo na coleção de vinis dos meus pais e me deparar com esse álbum.
Olhei para a capa. Obviamente, já a tinha visto uma dúzia de vezes. Mas não
tinha parado para observar. Fiquei um tempo percebendo os detalhes, os desenhos
maiores dos quatro beatles e as várias fotos menores de cada um que saiam das
cabeças, como se fossem pensamentos. Motivada pela imagem, resolvi baixar o
álbum em MP3.
Claro, eu já
tinha ouvido aquelas músicas antes. Mas teve um significado novo. Foi a
primeira vez que, de fato, me apaixonei por um álbum dos Beatles. Foi quando
virei beatlemaníaca. E foi um rumo sem volta.
Considero
esse álbum como o amadurecimento do meu gosto musical. Até então eu conhecia
Beatles e até gostava, mas nunca tinha dado a importância devida à banda.
Coincidentemente, Revolver também marcou o amadurecimento dos Beatles. Esse
álbum foi um divisor de águas, quando os quatro largaram de vez o ié-ié-ié e se
jogaram no mundo psicodélico.
Pela primeira
vez, os Beatles, se envolveram de perto com o processo de mixagem, adotaram
muitas inovações nas gravações das músicas, e é isso que criou uma nova
sonoridade, mais complexa e diferente dos primeiros albuns. Foi a partir de
Revolver que os Beatles pararam de se apresentar ao vivo, pois, à época, era
impossível reproduzir todos os efeitos no palco.
Os destaques do álbum
Dentre minhas
músicas preferidas, Eleanor Rigby
ganha disparado. Acho até que a canção dispensa explicações. Ela mostra a
genialidade de Paul Mccartney enquanto musicista e compositor. Ele compôs e
gravou a música quase inteiramente sozinho. Entretanto, as cordas, que dão a
música sua característica tão especial, foram tocadas por oito músicos, em um
arranjo incrível feito por George Martin (Aliás,o que seriam os Beatles sem os arranjos de
George Martin? Não foi à toa que ele foi considerado o quinto beatle. Mas isso
é assunto pra outro post!).
Eleanor Rigby, no desenho Yellow Submarine
Taxman é outra especial. Foi quando eu
percebi que nem só de Paul e John se fazia os Beatles. George Harrison tem
músicas fantásticas! E esse foi o primeiro álbum que a música de abertura foi
dele. A temática da canção também é bem interessante, e por isso gosto tanto
dela: trata dos abusos dos impostos e taxas do governo inglês. Alguma
semelhança com nosso país?
Taxman: a crítica ácida de George aos impostos britânicos
Por último,
preciso falar da pérola de John Lennon,
Tomorow Never Nows. Aliás, boa parte das inovações sonoras do álbum vem das
composições do John, e dessa especialmente. O efeito, que na minha percepção
auditiva é bastante incomum, foi conseguido cortando e colando diversas fitas
de gravação. E se ouvirmos bem, a música dá a impressão de ser uma grande colagem de coisas aleatórias.” Ouvi-la,
na minha opinião, vale por seu valor inovador para a época e também pelo
estranhamento que causa. É uma música nada harmônica, diferente do que
normalmente se espera dos Beatles.
Tomorrow Never Knows: uma dose de psicodelia
Anos mais
tarde, em 1996, essa música deu dor de cabeça aos Chemical Brothers. A faixa Setting Sun, com participação de Noel
Gallagher nos vocais, foi acusada pelos representantes legais dos Beatles de plagiar
Tomorow Never Knows. A gravadora
Virgin Records teve que responder judicialmente, e, ao fim do processo,
livrou-se da acusação. Mas, na opinião totalmente parcial de uma beatlemaníaca
sem nenhuma formação musical, a semelhança é muito absurda! Lembro até hoje
quando uma amiga me fez ouvir Setting Sun,
me desafiando a lembrar o nome da música dos Beatles, e eu soube na hora. E
eu não conhecia Chemical Brothers e muito menos sabia da história do plágio.
Setting Sun, do Chemical Brothers: mostre a qualquer beatlemaníaco, ele advinhará de onde veio!
Pelas
diversas novidades no estilo dos Beatles que começam a partir desse momento,
esse Revlover merece ser ouvido inúmeras vezes. Seja no seu ipod, no seu carro, no
seu PC ou até na sua vitrola.
“Black Sun Setting through the ruins, a
decade of silence”
Trevas. Dentro de você. Na década de 1980, Scott “Wino”
Weinrich foi um dos precursores do termo “doom metal”. No entanto, já existem
muitas bandas infinitamente mais pesadas que se utilizam desta alcunha. Gosto
de classificar este obcecado simplesmente como “doom rock”. O primeiro play
desta banda saiu apenas em 1990, mas as gravações começaram ainda na década de ’70
(em 1976). Uma viagem psicodélica para os cantos mais escuros da sua alma! “Doom”
é tudo o que te pega pelas vísceras, que te faz chorar. Ora, chorar não é
exatamente ruim o tempo todo, já que a tristeza também é parte da experiência
humana. Ninguém aprende nada acertando sempre. Alcoolismo, abuso de
alucinógenos, amores destrutivos e impossíveis. As letras chocantemente
honestas desse Sacerdote Sabático tratam de tudo isso e ainda mais.
Qualquer semelhança com o quarteto fantástico encabeçado por
Ozzy Ousborne não é mera coincidência. O próprio Wino já disse estar saturado
de fazer jams tocando sempre as mesmas músicas do Volume 4 do Black Sabbath. Se
o sabá negro é um culto, Wino é uma das cabeças atuais desta crença.
1."Tombstone
Highway" - 3:29
2."The Way She
Fly" - 2:22
3."Forever
Midnight" - 4:59
4."Ground
Out" - 3:17
5."Fear
Child" - 1:53
6."Freedom"
- 5:58
7."Red
Disaster" (Weinrich/Laue) - 3:52
8."Inner
Turmoil" - 2:21
9."River of
Soul" - 4:26
Ainda houve um relançamento deste
primeiro play, que inclui as seguintes faixas, algumas ao vivo e com a
qualidade de gravação bem duvidosa:
1."No
Message" - 1:03
2."Neatz
Brigade" - 4:54
3."Concrete
Cancer" - 3:13
4."Mental
Kingdom" - 2:49
5."Feelingz"
- 2:26
6."A World
Apart" - 1:45
7."Freedom"
- 5:04
8."Blind
Lightning" - 3:45
Is This it – The Strokes (2000)
Era dezembro
de 2001. Um dia de férias, eu zapeava a televisão buscando algo que suprisse
minhas (muitas) horas de tédio. Foi quando eu me deparei com um clipe estranho
na MTV. Parecia ser de uma banda antiga, dos anos 60, devido à qualidade da
imagem e aos cabelos e roupas dos integrantes. Eu, que dava meus primeiros
passos no irreversível vício em rock clássico, me perguntei por que nunca havia
ouvido falar daquele som. Dias depois, descobri que eles não eram uma banda
velha coisa nenhuma. Tinham surgido em 1998, e se chamavam The Strokes. Fiquei
encantada com a sonoridade de Last Nite,
a música do clipe o qual eu tinha assistido e primeiro single da banda. Tinha
uma batida repetitiva contagiante. E a voz do vocalista, Julian Casablancas,
era pouco refinada e lembrava um cara bêbado cantando em uma banda de garagem.
Last nite: primeiro clipe da banda no melhor estilo 60's
Durante
alguns meses, Last Nite foi meu único
conhecimento sobre The Strokes. Perguntei para vários amigos se eles sabiam da
existência do grupo. Resultado negativo.
Até que um dia, um menino que eu mal conhecia começou a cantar Last Nite do meu lado. Eu nunca tinha
falado com ele. Aliás, naquela época, eu não falava com quase ninguém. Mas
pulei do lado dele perguntando, ansiosa, “Você conhece The Strokes???”. Ele achou que eu era completamente maluca,
certeza. É meu amigo até hoje. Foi ele quem me deu de presente de aniversário o
Is This It, álbum de lançamento da
banda.
O ritmo
rápido da bateria e os riffs repetitivos da guitarra são totalmente
inebriantes. São 10 músicas curtas, o que ajuda a fazer delas intensas, como
uma pequena explosão do bom e velho rock’n’roll. Seguindo o melhor estilo punk,
o álbum inteiro parece ter sido gravado de uma garagem, instrumentos e voz sem
polimento algum. O destaque especial vai para Soma, cuja letra foi inspirada no livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. “Soma” era o nome da droga
cujos personagens tomavam para fugir da realidade. A música faz jus ao mundo
fictício de Huxley, com momentos de calmaria e intensidade. NYC Cops também possui uma história
controversa e interessante. Ao ironizar com os policiais de Nova York (“NYC
Cops, they ain’t too smart”), os Strokes conseguiram que essa canção fosse
censurada nos Estados Unidos. O país levou isso com uma ofensa, especialmente
depois da atuação dos policiais de Nova York para conter os estragos dos
atentados de 11 de setembro. É por isso que na versão americana do álbum,
encontramos outra música no lugar de NYC
cops: When it started.
When it started: música que substituiu NYC cops na versão americana do album. Aqui, em uma versão ao vivo
Aliás, essa não foi a única parte censurada do primeiro álbum dos
Strokes nos EUA. Por lá, a capa também foi motivo de controversa. Mundialmente,
a capa do Is This It mostra o contorno de um quadril feminino com uma mão
vestida em uma luva preta pousada sobre ele. Já a versão americana, por conta
da proibição, ficou com essa imagem aqui:
13 anos se
passaram, e eu ainda acho que esse é um dos melhores álbuns do rock
contemporâneo. Os Strokes lançaram mais trabalhos, alguns bons, outros nem
tanto. Outras bandas no mesmo estilo despontaram graças ao sucesso deles, e eu
ouço muitas delas. Mas nada foi como Is This It. Ele merece lugar de honra no
meu ipod.